marcusve/ dezembro 26, 2018/ O que é a Bíblia/ 0 comments

O que é a bíblia? (por Rob Bell)* – Parte 23

Porque essa biblioteca – parte A.

clique aqui para começar com a parte 1

 

Você é um ser humano.

Óbvio, mas um excelente ponto de partida. Você tem experiências e sentimentos, desejos e lutas, amor e ódio, vingança e anseios – estas são as realidades fundamentais da sua existência. Por milhares de anos, as pessoas têm usado a linguagem para descrever essas realidades e as formas como elas se manifestam e nos moldam. Símbolos, metáforas, histórias – lembra quando você estava na escola e você aprendeu sobre arquétipos, e você percebeu que estava familiarizado com esses arquétipos, porque você os tinha visto em filmes e livros e em sua vida?

O desejo de ser aceito, a rivalidade entre irmãos, a busca de um tesouro, a volta para casa – essas histórias e as verdades dentro delas foram contadas e recontadas, desde o momento que fomos capazes de dizer alguma coisa. Elas são o modo pelo qual damos sentido às coisas, como podemos classificar o que é real e verdadeiro, elas são o modo pelo qual comunicamos algo que chamamos de significado.

Pegue a frase O peso do mundo em seus ombros. Será que realmente o peso do mundo está em seus ombros? Quanto é que o mundo pesa? Como você saberia se estivesse com tanto peso em seus ombros? E se o mundo estivesse em seus ombros, então onde é que você estaria, porque a única coisa sobre a qual você normalmente fica não estaria lá, porque estaria em seus ombros. Falo disso, porque essa frase sobre o peso do mundo é verdade, mesmo que ela não seja literalmente verdadeira.

É mais do que literalmente verdadeira.

Às vezes você se sente assim, não é? E usando essa frase é um modo exato e verdadeiro para falar sobre esse estado de ser.

Um amigo meu me mandou uma mensagem dizendo que sua esposa deu à luz no início do dia ao seu primeiro filho. Eles estão em êxtase, é claro. Ele mandou uma mensagem com o peso de seu filho e enviou uma foto e escreveu que ele se sente como se a vida estivesse começando de novo.

A sua vida estava começando de novo? Não. Está se desenrolando como sempre. E, no entanto, está começando de novo …

É por isso que precisamos de poesia, histórias, imagens, versos, metáforas e figuras de linguagem. É assim que articulamos a verdade dos acontecimentos e momentos que não podem ser articulados com meros fatos. É assim que falamos sobre as realidades fundamentais da nossa existência, é assim que navegamos no significado, são essas coisas que utilizamos para dar sentido a nossas experiências.

Vamos chamar isso de VerdadePoema. Eu uso poema porque todos nós sabemos o que é um poema e já experimentamos o poder da poesia –

a propósito, você já reparou quantas pessoas não vão à igreja, e quando perguntadas por que, elas dizem que é porque elas se sentem num show, mas, em seguida, elas vão para um show do U2 e dizem que se sentem numa igreja? Você não tem ideia de metade do que Bono está cantando e, ainda assim, algo dentro de você ressoa com a verdade da canção. Suas células, ossos e sentidos afirmam que o que quer que esteja acontecendo na canção é real e pode ser confiável, mesmo que você não tenha uma linguagem clara e factual para isso.

VerdadePoema.

É assim que nomeamos nossas realidades fundamentais, desde que começamos a nomear tais coisas.

E então algo aconteceu (Que é sempre uma ótima maneira de começar um parágrafo quando você está falando de história).

Matemática.

Os gregos, e alguns vizinhos, começaram a falar sobre matemática. Números, precisão, fórmulas, geometria – estou simplificando aqui, pois obviamente as pessoas usavam números antes disso, mas houve um momento na história em que explodiu o conhecimento sobre como as coisas são do jeito que são. Números, dados, teoremas – o que é muitas vezes referido como logos – de onde nós temos a palavra lógica – mas eu vou usar um termo diferente por causa de como essa palavra é usada em referência a Jesus.

Eu vou chamá-la de VerdadeMatemática. Esta evolução, desenvolvimento, progresso, descoberta, como você quiser chamá-la, foi um gigantesco e excelente passo a frente na história humana. O mundo moderno, que você e eu conhecemos como nossa casa, com todos os seus luxos e tal, foi construído por ela. Engenharia, máquinas, planilhas, laboratórios – todos extremamente úteis e necessários para construir o mundo como nós o conhecemos.

Retomando.

Porque, quando meu amigo me enviou uma mensagem do quarto do hospital sobre seu novo filho, ele não enviou algumas informações sobre seu filho como peso, tempo de nascimento, nome, mas depois, quando ele fala sobre a vida começar de novo, o que ele faz? Ele muda para o quê?

Metáfora. Símbolo. Figuras de linguagem.

Ele começa com VerdadeMatemática, mas depois muda para VerdadePoema.

Por quê?

Porque a VerdadeMatemática é limitada.

Ele não pode fazer certas coisas. Não é profunda o suficiente, cheia o suficiente, grande o suficiente ou suficientemente sábia para com as realidades fundamentais com as quais estamos lutando desde a primeira vez que pudemos refletir sobre a nossa condição.

Ela falha em descrever o que é segurar seu filho nos braços pela primeira vez.

A VerdadeMatemática é inadequada quando se trata de coisas como o significado, ou o amor, ou a dor em seu coração.

Mas acontece que a VerdadeMatemática domina nossa cultura. Como ela surgiu na história e nos trouxe muito avanço, tecnologia e conveniência, ela tende a passar por cima de outros tipos de verdade em seu caminho, especialmente as do tipo VerdadePoema.

É por isso que a indústria da música não está morrendo, mas simplesmente mudando, porque estamos ouvindo mais música do que nunca. Por quê? Gostaria de sugerir que, como a VerdadeMatemática – literal, preto no branco, somente os fatos – domina cada vez mais a cultura, temos cada vez menos espaços para nos comunicarmos e para lutar com as realidades fundamentais da nossa existência, que precisam da VerdadePoema, o tipo de verdade que muitas vezes é expressa em música e filmes. (O que explica esse novo verbo que temos: Netflixar, como eu vou Netflixar isso. O que vamos fazer se essa tecnologia extraordinária agora está em nossas casas? Assistir os programas de televisão épicos, longos e fora de moda, ambientados em outras épocas e lugares – a década de 60, uma ilha no Pacífico, uma pequena cidade no Texas, o inverno chegando, Sr. Boneco de Neve! – que falam com a nossa necessidade de VerdadePoema).

E o que um certo número de pessoas da igreja tem frequentemente feito com a Bíblia em meio a essa dominação crescente da VerdadeMatemática?

A pior coisa possível.

Eles têm tentado defender a legitimidade da Bíblia como VerdadeMatemática. Eles entraram nesse jogo, o que significa jogar de acordo com essas regras.

Se você já ouviu falar sobre a Bíblia como a verdade literal, a verdade objetiva, a verdade absoluta, o manual do proprietário, então você sabe ao que eu estou me referindo – estão tentando provar que a Bíblia pode jogar o JogoMatemática.

É por isso que tantas pessoas que foram criadas com essas vozes acham que a Bíblia é tão confusa e … bem … chata.

Você percebe isso muito bem nas perguntas que são feitas: se o diabo é uma pessoa real ou não, se a Bíblia pode ser confiável quando trata de fatos sobre o fim dos tempos, se realmente Jonas foi engolido por um peixe real, ou se Ananias e Safira realmente foram mortos por Deus por terem mentido.

Não há nada de errado com essas perguntas, e nós vamos chegar a algumas delas em um futuro próximo, mas eu estou atrás do modelo sob o qual essas perguntas são feitas, e da propensão que esse modelo em particular tem para sugar a vida da Bíblia.

VerdadeMatemática, em outras palavras – esse modelo encontra os padrões da VerdadeMatemática?

Este é o momento em que estamos, este é o problema e é por isso que eu estou escrevendo esta série, há literalistas em ambos os lados e eles estão falando mais alto do que nunca.

Um tipo de literalista vê tudo através do filtro da VerdadeMatemática, só aceitando como verdadeiro o que pode ser comprovado, o que tem fatos, aquelas realidades com provas suficientes. O que um monte de vozes muito inteligentes e informadas têm apontado é que a Bíblia não preenche os critérios da VerdadeMatemática. (Embora em alguns aspectos muito inesperados ela preencha… mais sobre isso mais tarde). Pense em todos os seus amigos inteligentes que estão lendo livros de biólogos brilhantes informando a você que eles têm coisas melhores para fazer do que ler mitos bobos dos tempos pré-modernos.

E como se as pessoas religiosas muitas vezes responderam? Muitas vezes, defendendo, debatendo e tentando provar a validade da Bíblia de acordo com essas mesmas categorias. E colocando outdoors ridículos e ofensivos sobre Gênesis 1.

Ahhhhhhh!

Na tentativa de defender a Bíblia, eles respondem com o mesmo tipo de literalismo, pois mantêm a discussão na mesma categoria da VerdadeMatemática.

(Você já ouviu alguém perguntar: “se a história de Adão e Eva não é literal, então como você pode confiar no resto?”. Este é um exemplo clássico do que acontece quando a Bíblia é invadida pela VerdadeMatemática. Isto é o que acontece quando você força a Bíblia em categorias nas quais ela não se encontra… você se enfia no meio das perguntas erradas. E perguntas erradas não trazem a você respostas certas. E é também por isso que é importante lembrar que os evangelhos não são biografias sobre Jesus – os escritores não estão tentando lhe dizer exatamente como e quando certas coisas aconteceram. Eles são evangelhos – os escritores querem que você ouça boas notícias sobre o que Deus está fazendo no mundo, esse é o objetivo dos escritores).

Para concluir, a Bíblia é essencialmente uma biblioteca de livros sobre a VerdadePoema. Embora existam muitos fatos e um pouco de lógica, e um monte de lugares, pessoas e eventos, a Bíblia diz respeito, antes de tudo, à VerdadePoema, às verdades mais profundas a respeito do significado da vida. Seu foco são as realidades fundamentais de luta de dúvida e de dor, alegria e beleza e desejo, com os quais todos nós dançamos e lutamos todos os dias.

Você vê o que aconteceu?

Temos esta coleção extraordinariamente única e inspirada de escritos que nos dão uma visão sem precedentes sobre os assuntos dos quais mais ansiamos ter vislumbres e, em vez de abraçá-la pelo que ela é e deixá-la ser o que é e aproveitá-la e celebrá-la e entrar na sua história, as pessoas tentam provar que ela é um tipo de livro diferente do que realmente é

em vez de simplesmente dizer

Não é esse tipo de livro.

É muito mais perspicaz, sábio, complexo, misterioso e verdadeiro do que isso. Este livro segue um conjunto diferente de regras …

Eu não tenho ideia do que aconteceu com os camelos de Jó ! Não é o foco da história!

Eu não tenho ideia se foi ou não um peixe que engoliu Jonas! Não é por isso que a história foi contada.

Nós não temos nenhuma maneira de saber se um cara real construiu uma arca real! Não é esse tipo de história.

Quem se casou com os filhos de Adão e Eva se eles eram os únicos no planeta? Eu não tenho a menor ideia, e ninguém tem porque não é uma história literal! O autor está tentando dizer algo muito mais significativo do que isso! Ficar preso nos detalhes factuais realmente rouba da história o poder que ela pretendia ter!

Eu não tenho nenhuma ideia de por que os amigos de Jesus não o reconheceram depois de sua ressurreição! Os escritores tinham um objetivo diferente em mente.

Não é por causa dessas questões que essas pessoas escreveram esses livros e contaram essas histórias!

Eles estavam interessados em algo maior, eles estavam em busca das verdades-mais-do-que-literais dessa vida e dos anseios mais profundos, e desejos, e perguntas e lutas desta insanamente difícil / confusa / visceral / desesperadamente bela existência que todos nós compartilhamos, na qual algumas pessoas morrem de câncer antes que tenham 30 anos, enquanto outros estão em um hospital segurando o recém-nascido e se sentindo como se

a vida

estivesse

apenas

começando.

Ufa. Fiquei um pouco exaltado aqui.

A seguir: Por que essa biblioteca – parte B

*Série de reflexões sobre a Bíblia, escrita e publicada originalmente em inglês, no tumblr, pelo próprio autor Rob Bell e sua equipe.

Transcrito e adaptado para português por Marcus Vinicius Epprecht com autorização do autor. Proibida a reprodução para fins comerciais ou qualquer forma de ganho sobre este texto sem a autorização expressa do autor e do tradutor. Os posts originais em inglês foram desativados pelo autor em função do lançamento desse conteúdo em livro, por enquanto somente em inglês. Revisado por Fernanda Votta Epprecht.

 

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Marcus e Mel

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